Como fazer para ser feliz? O mestre respondeu:
– Era uma vez um viajante, andava de cidade em cidade. Um dia entrou em uma delas e percebeu que todos sorriam naquele lugar. Perguntou à um homem na rua: por que aqui todos são felizes? Porque, quando temos um problema, subimos aquela montanha, respondeu o homem. Lá em cima mora um grande sábio. Contamos nosso problema e ele nos ajuda a resolvê-lo.
Sem perder tempo, o viajante, que andava angustiado com um antigo problema, subiu a montanha esperançoso. Chegando lá em cima, viu o sábio sentado em uma pedra, meditando de olhos abertos. Chegou perto e respeitosamente perguntou:
– Mestre, o senhor poderia me ajudar a resolver meu problema? O mestre disse: qual é o seu problema? Então o viajante relatou detalhadamente, em mais de vinte minutos, o problema que lhe atormentava a tantos anos. Ao terminar, o mestre disse: por favor, resuma para mim. O viajante conseguiu resumir, agora em três minutos, o problema. O mestre então disse: por favor, resuma em uma só frase. O viajante sintetizou todo o seu problema em uma única frase. Ao dizê-la, subitamente enxergou a questão com clareza, pela primeira vez na vida. Percebeu que seu problema era, na verdade, bem pequeno e tinha solução. Agradeceu imensamente ao mestre e desceu a montanha correndo e sorrindo de felicidade. Chegando na cidade, encontrou novamente com o homem que tinha contado sobre o mestre. Antes que pudesse contar sua experiencia, o homem disse ao viajante: olha, esqueci de te avisar que o mestre da montanha é totalmente surdo!
Essa breve história serve para nos lembrar de que, diante de situações difíceis, a ansiedade frequentemente nos faz acrescentar maior complexidade aos fatos. E isso só piora nossa situação. Ao contrário, caminhando da complexidade para a simplicidade, encarando só aquilo que é real, sofremos menos e muitas vezes encontramos soluções satisfatórias.
Quando se trata, porém, de compreender a natureza e seus processos, simplificar pode ser um erro que nos sairá muito caro.
Para compreendê-la, muitas vezes é necessário trilhar o caminho inverso, o da visão sistêmica, ou da complexidade.
O filósofo francês Edgar Morin, descreveu, de forma simples, a teoria da complexidade: “O comportamento do todo não pode ser previsto apenas analisando suas partes isoladas”.
Já o físico e escritor Fritjof Capra, um dos meus favoritos, diz: “A vida é uma rede de padrões inseparáveis de relacionamentos. São redes que se regeneram, de modo criativo e inteligente, de acordo com os estímulos que recebem”.
Segundo Capra, as pessoas hoje precisam de “alfabetização ecológica” para manejar os recursos naturais com inteligência e sustentabilidade. Isso significa entender o funcionamento do todo. No caso dos agroecossistemas, ou sistemas agrícolas, significa entendê-los em sua complexidade, como uma rede viva, onde cada espécie interage com as demais. Homem, plantas, animais, macro e microrganismos.
Para a maioria das pessoas do agronegócio de hoje, modernas tecnologias são exemplos de complexidade. Análises metagenômicas, agricultura de precisão, moléculas sintéticas de pesticidas, diagnósticos por imagens aéreas, nanotecnologias, robótica, IA…. não faltam exemplos. Paradoxalmente, todas elas partem de simplificações absurdas da realidade complexa da teia da vida. Surgem então as falhas, as situações não previstas, as frustrações de safra, a conta que não fecha.
Mas….como pode? Usamos tudo da mais alta tecnologia disponível! Era para ter dado resultados melhores! Aí, quase invariavelmente, colocamos a culpa na natureza: faltou chuva! Choveu demais; as temperaturas foram muito altas; as pragas, as doenças….
Para praticar uma agricultura que regenere os solos que degradamos, compactamos e intoxicamos, é preciso prestar mais atenção nos princípios naturais que governam os agroecossistemas. As ferramentas tecnológicas são importantes, é claro, mas são apenas a “caixa de ferramentas” disponível aos produtores. É preciso compreender os processos naturais, a “teia da vida”, para poder escolher as ferramentas mais adequadas a cada situação, a cada fazenda, a cada microbacia.
Isso exige curiosidade, observação, estudo, experiência. Exige presença física, sensibilidade e ética. Exige IH*.
*IH = inteligência humana
Antonio N. S. Teixeira
