O PROFERT E O PARADIGMA DO NPK

O PROFERT E O PARADIGMA DO NPK

Foi Einstein quem disse: “é impossível resolver um problema a partir do mesmo paradigma que o gerou.”

O PROFERT, recém aprovado pelo congresso nacional brasileiro (lei 14.496, 03/09/2026), é o programa de desenvolvimento da indústria de fertilizantes. Importamos cerca de 85% dos fertilizantes sintéticos que usamos. Isso realmente é um problema, pois, do ponto de vista da produção agropecuária, ficamos muito vulneráveis aos acontecimentos externos. O que questiono aqui não é o problema, que é fato, mas o raciocínio usado para resolvê-lo.

Não é difícil imaginar que o preço dos fertilizantes continuará acompanhando as oscilações internacionais. Veja um exemplo prático: imagine que o preço do MAP importado chegue em sua fazenda por R$5.000,00/t, e que seja construída uma indústria no seu município. Por que motivo essa indústria venderia o MAP para você por menos de R$4.900,00/t? Por outro lado, será que o custo de produção e de logística nacionais serão competitivos com o importado? Se não, quem pagará essa conta? Se o governo subsidiar e a produção nacional aumentar bastante, isso forçará os preços internacionais a caírem. Isso significa que teremos que subsidiar mais ainda, para não quebrar nossa indústria.

Se você perguntar ao ministro da agricultura de qualquer país europeu, o motivo pelo qual a agricultura lá é fortemente subsidiada pelo governo, a resposta honesta será: porque não conseguimos competir, principalmente com vocês (Brasil), que têm terras à vontade e clima tropical, e precisamos manter nossos agricultores no campo. Pela nossa segurança alimentar, pela nossa soberania. O PROFERT segue raciocínio semelhante, mas o subsídio, ou incentivo, será para a indústria, não para o produtor.

A meta do PROFERT é reduzir dos atuais 85%, para 70% de fertilizantes importados até 2030. E para 50% até 2050. Enquanto isso, mais de 50% dos fertilizantes que usamos NÃO é aproveitado pelas plantas. Sim, isso mesmo, a eficiência, na grande maioria das fazendas, não chega a 35% do total aplicado. E os 65% não absorvidos exercem forte efeito no solo, desequilibrando e suprimindo a vida dentro dele, que por sua vez gera aumento da necessidade de uso de pesticidas, além de poluir e eutrofizar as águas.

Ao mesmo tempo, existe, neste momento, uma enorme oportunidade batendo na porta de cada agricultor e pecuarista desse País. Ela está sendo chamada de Agricultura Tropical Regenerativa – ATR. As fazendas que migraram para esse modelo, mais apropriado para nosso País, estão, no mínimo, dobrando a eficiência no uso dos fertilizantes a base de NPK.

Em outras palavras, estão reduzindo pela metade ou menos, a compra (e o uso) de fertilizantes sintéticos, exatamente os que importamos hoje. Isso é fato facilmente comprovado, bastando visitar qualquer uma das milhares de fazendas, pequenas e grandes, que já migraram para a ATR. Enquanto consultor agronômico, sou testemunha disso há mais de quinze anos, quando eu e minha equipe começamos a orientar essa transição em mais de 200 fazendas pelo Brasil.

São fazendas de grãos, cana, café, citrus, HF, entre outras, que hoje fabricam boa parte do adubo que utilizam, a partir dos resíduos animais e vegetais gerados, acrescidos de rochas regionais específicas, chamadas de remineralizadores e fertilizantes naturais. Não se trata, porém, de mera substituição de insumos. Estamos falando de mudança de manejo, de processos, de adubar a partir de um novo paradigma: o solo vivo.

Um conjunto de robustas descobertas e comprovações científicas adquirido nos últimos cem anos, nos permite afirmar que o solo é um ambiente vivo e multiespecífico. Dentro dele, onde estão inseridas as raízes das plantas, acontecem boa parte dos ciclos biogeoquímicos, como os do Carbono, do Nitrogênio, do Enxofre. Também acontece ali o intemperismo das rochas, que contém elementos minerais necessários à vida.

A fotossíntese permite que as plantas capturem a energia do sol e o CO2 atmosférico para produzir alimentos para todos os que moramos neste planeta. Mas isso só acontece se os macro e microrganismos que habitam o interior do solo realizarem a ciclagem, mineralização, solubilização e disponibilização dos nutrientes minerais para as plantas.

Em uma comparação simples: em um solo com pouca atividade biológica, as plantas precisam de fornecimento periódico de fertilizantes minerais hidrossolúveis, para produzirem bem. São como pacientes tomando soro na veia, em um hospital. Já em um solo vivo, desintoxicado, com diversidade e atividade biológica abundantes, os fluxos de massa e de energia proporcionam às plantas, acesso a esses minerais, com necessidade muito menor de inputs externos.

Observe que o paradigma da adubação muda. Antes, se tratava de fornecer nutrientes minerais solúveis às plantas. Agora, trata-se de regenerar o solo, para resgatar e fortalecer os processos vitais que ocorrem dentro dele e, assim, possibilitar o acesso natural das plantas aos minerais de que necessita. É exatamente assim que funciona há quase 500 milhões de anos, tempo estimado em que as plantas estão por aqui.

Durante esses últimos cem anos, especialmente nos últimos 40, enorme quantidade de substâncias agressivas à vida, como os pesticidas e os fertilizantes sintéticos, foram utilizadas em nossos solos. Isso provocou a gradual redução da atividade biológica que garantia seu funcionamento natural e adequado. Criou-se então um ciclo vicioso: sistemas intoxicados precisam cada vez mais de pesticidas e fertilizantes para continuarem a produzir. Como nossa sociedade tem memória curta, após algumas gerações de produtores, quase todos acham que foi sempre assim, e quase ninguém questiona mais o modelo vigente. Até que ele comece a se mostrar insustentável.

E é exatamente o que aconteceu nesses últimos anos. A resposta veio na forma da ATR. Vivemos esse momento de transição: da agricultura de produtos (insumos) para a de processos. Com ela, pretendemos regenerar os solos, desintoxicando-os assim como as águas, trazendo de volta a biodiversidade vegetal e animal aos nossos agroecossistemas tropicais. Possibilitando maior retorno aos produtores, alimentos mais saudáveis e ampliando as expectativas das futuras gerações, quanto à qualidade de vida.

É estratégico para o Brasil reduzir a dependência de importação de fertilizantes sintéticos, objetivo do PROFERT. No entanto, podemos hoje dar um “salto quântico” na eficiência das adubações, se passarmos a tratar o solo como um ambiente vivo e sensível. Precisaremos de menos fertilizantes, isso melhora os resultados dos produtores. Para essa transição, o caminho mais bem pavimentado que temos é a agricultura tropical regenerativa. Com o apoio governamental, podemos sem dúvida, dobrar as metas de redução das importações de fertilizantes. E com investimentos muito menores.

Antonio N. S. Teixeira, 12 de outubro de 2026

Dia do Agrônomo, das Crianças e de Nossa Senhora Aparecida.

Antonio Teixeira

Antonio Teixeira

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